Acessibilidade: um rio Amazonas entre a teoria e a prática.


Meu primeiro contato com o termo acessibilidade foi em 2001, quando participei da resposta de um edital de licitação para construção de um sistema em ambiente Web de uma empresa do governo. Um dos itens do edital exigia que a solução fosse acessível para deficientes visuais.

Na época eu não sabia exatamente o que representava a palavra acessibilidade e muito menos o que precisaria ser feito para desenvolver um Website acessível. Também não tinha a menor idéia de como, nem com que tipo de tecnologia, alguém com deficiência poderia acessar o conteúdo das páginas de um site.

Os deficientes visuais navegam na Internet utilizando um programa conhecido como leitor de tela. Esses softwares varrem a tela do computador convertendo a informação em texto e enviando para um sintetizador de voz ou terminal Braille.

Acabamos ganhando a licitação e fui um dos responsáveis por desenvolver a solução acessível da interface do sistema. Saí em busca de literatura sobre o assunto, apostilas, tutoriais, artigos ou qualquer fonte que me desse ao menos, o caminho das pedras desse tema, até então, desconhecido.

Apesar de encontrar pouquíssimas fontes em português no Google e afins encontrei a cartilha do Fabio Gameleira, analista de sistemas da Dataprev. Ele criou a primeira cartilha em português sobre acessibilidade em Websites no final de 2000.

Fabio conta em sua cartilha que resolveu estudar acessibilidade quando percebeu que: “...com a Internet uma pessoa com limitações poderia passar a ter acesso às mesmas informações às quais eu tinha e que poderia passar a ler livros, jornais, revistas, manuais técnicos, literaturas etc.

Achei isto tão fascinante que comecei a estudar sobre acessibilidade na Internet. Mudei uma antiga página pessoal que tinha, tornando-a acessível...

Um outro forte fato que me fez ir adiante foi a possibilidade de proporcionar a uma amiga de trabalho, cega há 35 anos, a possibilidade de ler sozinha, pela primeira vez, a versão on-line do jornal O Globo, uma das páginas mais acessadas do Brasil. Definitivamente, as portas de um novo mundo começavam a se abrir...

Acabei aprendendo as regras básicas de acessibilidade com a cartilha, as recomendações do W3C Web Acessibility Initiative (WAI) e com o bom livro do Joe Clark, Building Accessible Websites. Aprendi também testando minhas páginas HTML nos validadores de acessibilidade como o WebXact (Bobby) , Cynthia, DaSilva, etc. Eles ajudam o Webdesign/desenvolvedor a encontrar erros e esquecimentos apontando com exemplos, como acertar os itens listados.

Como citei no artigo “O selo não garante a acessibilidade”, estes softwares que são conhecidos como validadores de acessibilidade apesar de úteis, não são perfeitos e muito menos inteligentes. Uma avaliação automática pode avaliar apenas algumas das regras, não todas.

Por exemplo, os validadores não têm como testar se o tamanho aplicado na fonte do texto de um determinado menu está ou não acessível. Eles não podem analisar se os nomes das áreas de um site estão inteligíveis ou não e, ainda, se o contraste entre a cor do fundo do menu e do texto está suficientemente forte para permitir a sua leitura. Existem dezenas de outros exemplos como esses, que demonstram que esses softwares sozinhos, não podem ser usados para validar a acessibilidade de um site.

Além disso, eles são limitados, pouco inteligentes e ignoram erros como esse listado a seguir:

Imaginem uma página Web com 3 imagens relevantes - devemos esquecer as imagens decorativas, que neste caso, não devem ser aplicadas diretamente no HTML e sim no CSS, mas este tema é para outro artigo.

Para torná-las acessíveis é necessário aplicar a propriedade ALT nos tags IMG com as suas respectivas descrições textuais. Se aplicarmos a propriedade ALT com valores iguais para as 3 imagens, os validadores irão aprovar a acessibilidade da página, mas ela não estará acessível. Por exemplo, quem necessitar de um software “leitor de tela” para acessar a Internet, não saberá diferenciar as imagens umas das outras, nem terá acesso ao conteúdo delas.

Ex.:

       <img src=”produtos.gif” alt=”imagem” />
       <img src=”serviços.gif” alt=”imagem” />
       <img src=”precos.gif” alt=”imagem” />
	

Validadores são úteis, mas não podem substituir uma boa avaliação e testes feitos por pessoas e como o exemplo acima mostrou, não podem ser 100% confiáveis.

Depois de finalizar o primeiro projeto Web “acessível” continuei estudando o tema e aplicando as técnicas em outros projetos mesmo quando o cliente não se interessava ou entendesse muito essa tal de “acessibilidade”. Com o tempo acabei me interessando mais por esse assunto e, de 2001 até o início de 2004, sempre que possível estudava e pesquisava esse surpreendente tema.

Com o tempo e maior experiência passei a acreditar que conhecia o suficiente para desenvolver projetos Web com acessibilidade.

Pensava assim até conhecer o MAQ, como é conhecido no meio digital o deficiente visual, programador aposentado do SERPRO, professor e consultor de acessibilidade, criador do site Bengala Legal e escritor Marco Antonio Queiroz.

Por uma daquelas coincidências da vida - que no meu entendimento não existem – fui convidado a participar de um curso sobre acessibilidade na Web que o MAQ iria ministrar para alguns programadores e dois deficientes visuais, todos leigos nas técnicas para construção de Websites acessíveis.

Aceitei por pura curiosidade e, quem sabe, poderia até aprender algo de novo. Minha arrogância e opinião não resistiram ao primeiro exercício do curso. Alguns dias com o MAQ me fizeram sair do “quadrado” em que meu conhecimento sobre acessibilidade havia estacionado.

Em seu primeiro exercício, nos fez navegar por uma página Web com o fundo em preto e com todos os textos e links também pretos. Não dava para ver, nem ler nada, a única maneira de acessar o conteúdo da página era utilizando um software “leitor de telas” com ajuda apenas do teclado. De nada adiantava tentar usar o monitor e mouse. Era como se toda a nossa experiência de anos navegando pela Internet, não valesse para nada. Tivemos que aprender a andar de novo, e desta vez, de uma maneira totalmente nova.

Já havia utilizado os leitores de telas JAWS e o brasileiro Virtual Vision para testar alguns dos meus trabalhos, mas nunca havia navegado usando um desses softwares em uma página totalmente desconhecida e sem poder usar nem monitor, nem mouse.

O exercício me fez entender que não basta ter uma página Web acessível, é importante que ela também seja fácil de usar e entender. A diferença entre a teoria e prática é grande quando o assunto é desenvolvimento de sites acessíveis. De um lado do rio encontra-se uma página Web com todas as regras de acessibilidade aplicadas exatamente como nas cartilhas, guias e recomendações do W3C, e do outro lado, uma página verdadeiramente acessível.

Quando comecei a escrever este artigo tive a oportunidade de discutir seu tema com uma amiga que é deficiente visual e especialista em acessibilidade Internet, a Lêda – ler quadro com o resumo de seu currículo. Durante nossa conversa conseguiu sintetizar com maestria esse artigo com as seguintes palavras: “... na teoria, para se fazer um Website acessível precisamos aplicar as recomendações do W3C, mas na prática sabemos que não é o suficiente, além das técnicas, é preciso tornar as páginas fáceis de usar por todos. Aplicar usabilidade nos sites para torná-los verdadeiramente acessíveis...

Lêda Lúcia Spelta é deficiente visual, especialista em acessibilidade e em tecnologias assistivas como, por exemplo, os leitores de tela. É participante do grupo de estudos sobre normas de acessibilidade para a inclusão digital da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Leda é analista de sistemas da Dataprev e psicóloga.

Usabilidade aplicada na acessibilidade, mas afinal, o que é Usabilidade? Para Fred, jornalista, especialista em usabilidade e criador do site Usabilidoido, usabilidade é: "sinônimo de facilidade de uso. Se um produto é fácil de usar, o usuário tem maior produtividade: aprende mais rápido a usar, memoriza as operações e comete menos erros”.

Na verdade o que a Lêda quis dizer é que não adianta aplicar as técnicas e recomendações para tornar um site acessível e deixá-lo, por exemplo, com uma estrutura onde um usuário com deficiência tenha que clicar infinitas vezes na tecla TAB para navegar pelos links de uma página até chegar ao conteúdo desejado, isso é, se ele não desistir no meio do caminho. Ou ainda, um usuário comum que não consigue entender o funcionamento de uma determinada função do site e por conta disso fica impossibilitado de utilizar um serviço. Como será o comportamento de um cliente que não tenha conseguido realizar uma compra eletrônica em um supermercado? Cliente mal atendido é cliente perdido para concorrência, afinal de contas, ela está apenas a um clique de distância.

Mito: não é porque um Website é acessível, que ele deve ter uma interface feia, pobre, sem imagens e com limitações no design. Isso não existe, acessibilidade não é sinônimo de baixa qualidade gráfica, pelo contrário, deve ser associada a uma interface que propicie uma melhor experiência para o usuário. Já o acabamento do site fica por conta do gosto e habilidade do designer.

Sempre que converso com o MAQ a respeito dos problemas que envolvem a acessibilidade na Internet, ele faz referência a maneira com que programadores e Webdesigners aplicam os conceitos e técnicas de acessiblidade em Websites. Aplicar as recomendações de acessibilidade pode tornar uma página Web acessível, mas é bem provável que somente as regras não sejam capazes de tornar, por exemplo, a sua navegação simples. Isso acontece porque normalmente a estrutura do site não foi planejada para ser usada por pessoas com algum tipo de deficiência. “...na maioria das vezes quando um programador HTML me pede para analisar a acessibilidade de seu trabalho, me deparo com uma página acessível, mas que não foi planejada para ser acessada via teclado e nem testada por um usuário deficiente. Demora-se muito para conseguir acessar um determinado conteúdo e ainda temos que lidar com o exagero e redundância de textos explicativos causando o problema conhecido como verborragia...”.

Na teoria, tudo é muito bonito, mas na prática logo descobrimos que a única maneira eficiente e garantida de obter acessibilidade na Internet é através da realização de testes. Assim como as melhores práticas, os testes deverão fazer parte integrante da receita do bolo acessível. É um processo de aprendizagem e melhoria contínua, onde errar faz parte e, só podemos identificar os erros se testarmos as páginas do Website.

“Somos o que repetidamente fazemos, portanto, a excelência não é um feito, mas um hábito”.
Aristóteles

Uma das premissas da qualidade total é checar/verificar continuamente os processos envolvidos no desenvolvimento de um produto e/ou serviço para ver se estão sendo executados conforme planejado. É importante identificar e corrigir, o quanto antes, os erros e desvios que possam comprometer o seu funcionamento e qualidade. O custo de identificação dos erros no início do desenvolvimento de um projeto é infinitamente menor do que quando a sua descoberta é feita diretamente pelos clientes/usuários. Quando é o cliente que detecta o problema já pode ser tarde demais, principalmente em um ambiente de Internet onde a fidelização de clientes é uma tarefa tão difícil.

Finalizo este artigo com a frase que a professora e mestre em Design, Bianka Capucci Frisoni disse em sua apresentação no congresso de usabilidade realizado na PUC-RIO, em junho deste ano: “... a solução para um site ótimo é um site muito bem testado...

Então, como testar as páginas? Quais testes realizar? Quantas pessoas e com quais perfis?

As respostas a essas e outras perguntas serão apresentadas no próximo artigo de acessibilidade, o último do ano, em dezembro.


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Horácio Soares - Analista de Sistemas e WebdesignerHorácio Soares é professor universitário e trabalha como Analista de Sistemas e Webdesigner de uma multinacional.
horacio.soares@internativa.com.br