E-business


Ecologia, TI e outros bichos.

Responda rápido: qual a semelhança entre Ecologia e Tecnologia da Informação? Se você pensou “nenhuma”, saiba que cometeu um grande engano. Muito provavelmente você deve ter associado o termo “Ecologia” à natureza, geologia, fauna e flora; e “Tecnologias da Informação”, naturalmente, a softwares, hardwares, bancos de dados etc. Se você respondeu “tudo a ver”, você realmente conhece algo a respeito, e é sobre isso que eu gostaria de falar brevemente.

No mundo corporativo atual, a informação é um dos ativos mais importantes de uma empresa, um verdadeiro patrimônio, assim como o conhecimento tácito – e intangível – residente na cabeça de seus funcionários. Esse “patrimônio” muitas vezes pode superar o valor contábil das empresas. Por causa disso, a informação é a grande vedete corporativa nestes novos tempos da Sociedade da Informação e do Conhecimento.

Tratar a informação de forma racional e adequada às necessidades do negócio e às necessidades do cliente é o verdadeiro desafio dos gestores, diretores e gerentes; e é nesse ponto que podem ser encontrados vários erros; erros esses que na maioria das vezes levam uma empresa para o buraco. Acontece que a informação é tratada como um filho querido de pais que acham que sua educação e formação é tarefa somente da escola. Da mesma forma, as empresas acham que a informação – assim como um filho, fruto de suas atividades – deve ser “educada” no departamento de TI. Assim, enganos são cometidos e muitos aproveitadores se valem desse descuido e oferecem os mais variados tipos de parafernália tecnológica para suportar e tratar a informação.

Por conta disso, a empresa não sabe realmente como a informação está sendo tratada. E, não sabendo como a informação está sendo tratada, o conhecimento produzido fica sem rumo e continua no âmbito da clandestinidade. Sim, pois conhecimento clandestino é aquele que não está devidamente regulamentado, documentado. Nessas condições, não se sabe para onde a informação vai, o que é feito dela, nem como obtê-la de volta, com valores adicionais agregados. Perde-se nos bits digitais dos misteriosos softwares e a empresa, no final, não sabe “que” sabe, não sabe “o quê” sabe, não sabe “como” sabe e não sabe “porquê” sabe. A título de curiosidade, mais de 60% dos motivos de horas extras gastas pelos funcionários de média gerência para cima consiste na recuperação e reestruturação de dados e informações, na base da correria, para formatar relatórios de reuniões no dia seguinte, fato que poderia ser racionalizado utilizando-se metodologias e ferramentas corretas.

Percebe-se um grande abismo entre os gestores da informação, quase sempre o pessoal de TI, e as outras células departamentais da empresa – os consumidores da informação. Isso acontece devido à falta de uma cultura corporativa orientada ao processo de informação e conhecimento. Não necessariamente por incapacidade ou má qualificação profissional dos funcionários, mas porque os processos de informação dos tempos atuais são extremamente dinâmicos, exigindo boa capacidade de adaptação, o que nem sempre é feito de modo satisfatório.

Você perguntará: OK, mas e a questão da “Ecologia”? Bem, agora entra uma visão bastante revolucionária. Vários autores especializados em assuntos corporativos e Tecnologias da Informação sustentam a idéia da necessidade de uma abordagem “ecológica” da informação. Seria dizer, de modo ilustrativo, uma nova forma de “educação” e tratamento da informação na empresa. Como se pode perceber, “Ecologia” aqui nesse contexto não se refere, obviamente, a assuntos ligados à natureza ou ao meio ambiente. Esse termo, antes de mais nada, remete ao contexto de Ecossistema: O Ecossistema da Informação, ou melhor dizendo, todo o ciclo de vida da informação dentro da empresa, os lugares que percorre, os consumidores, enfim, metaforizando, a “cadeia alimentar” da informação.

Essa definição de “Ecologia da Informação” é bem oportuna, além de ser extremamente racional e sensata. Grandes especialistas da escola americana e européia da Administração já há tempos se referem às práticas ecológicas e a adotam em seus trabalhos acadêmicos e consultorias. Só para citar alguns, caso queiram se aprofundar nesse tema, lembro Thomas Davenport, da Universidade do Texas e Chun Wei Choo, pesquisador da London School of Economics. Estes especialistas sustentam que as empresas devem instituir um programa voltado à cultura da informação com base ecológica, considerando todo o ciclo da informação na empresa, seus canais, consumidores, gestores, armazenamento, enfim, todo o ecossistema ou o universo de operação da informação. Só assim o conhecimento, aquele “patrimônio” a que me referi acima, poderá ser produtivo e aplicado.

Essa é uma cultura ou “educação” da informação muito interessante, baseada numa visão holística, tendo no consumidor da informação o seu referencial mais importante, e não a Tecnologia da Informação. A TI é, sim, um complemento muito importante, essencial até, no que diz respeito a processo, rapidez e agilidade. Mas a Tecnologia da Informação – aqui entendida como os mais diversos softwares, como ERPs, Data Minnings, entre outros – são apenas veículos de estruturação e tratamento de dados.

Sob uma orientação ecologicamente correta da informação, os recursos destinados à TI serão muito bem canalizados, proporcionando grandes benefícios à empresa. O ideal, nesse sentido, seria um “ecologista da informação” planejar toda a estrutura do ciclo da informação, considerando desde canais de TI até os canais informais, através de estudos de usuário reais e potenciais. Isso quer dizer que, se bem executado, um bom planejamento ecológico poderia excluir até mesmo a TI em caso muito particulares. Tudo depende do estudo dos ciclos ou do ecossistema da informação. Às vezes uma estrada bonita e bem asfaltada pode levar muito tempo até determinado lugar; e uma atalho barrento pode levar ao mesmo lugar em uma fração desse tempo. Tudo é relativo.

Não há dúvidas, entretanto, que a Tecnologia da Informação exerce um papel irreversível no armazenamento, mineração e veiculação de dados e informações. Obviamente, sistemas de informações são indispensáveis no mundo corporativo moderno, mas o mais importante é adequar esses sistemas à cultura informacional da empresa. Algumas empresas têm até uma cultura de informação própria, apelidando seus produtos ou processos com terminologias muito particulares e personalizadas. E esses apelidos muitas vezes nascem de conversas informais em corredores, refletindo a “cultura” latente, ou conhecimento tácito da organização. Compreendendo esse ponto, palavras como Ecologia, TI e outros bichos farão muito mais sentido.

Sergio Martins - Analista de Informações EstratégicasSergio Martins é Editor de Intranets e Analista de Informações Estratégicas para Sociedades de Advocacia.
sergio.martins@internativa.com.br